sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

 

  • Uma oração

    - Pombagira Sete Saias, boa noite, a senhora me dê licença, vim só agradecer a boa companhia e pedir um axé nas minhas contas e nesse algodão colhido suado que eu uso pra fiar as minhas vaidades.

    A Pombagira dá boa noite muito charmosa, gargalha largo e me arrepia do calcanhar até a nuca, abraça apertado enquanto eu derreto e sussurra um segredo no meu ouvido, então e. Eu logo penso que não tem lugar melhor no mundo se não na festa dela macumba dela.

    - Que seus caminhos estejam abertos, que seus caminhos sejam iluminados, é só me chamar que eu falo contigo, tá bom…

    Ela pega o galho de arruda e faz o rezo no meu baixo ventre, na minha cabeça que trovoa, dá a volta toda pelo meu corpo e eu sinto que arranca maledicências de trás de mim. Do nosso lado o Tiriri garboso me dá um sorriso e eu lembro que sonhei com ele não tem tanto tempo, ao que meu corpo expande, sinto meus braços fortes na mesma medida em que a cabeça reorienta a rota dos pés. Volto meus olhos pra Sete Saias e digo que ela é tão linda , mas àquela hora eu não calculava que sem calcular que o que eu queria era aquela gargalhada, era ver ela fazer dançar o cavalo dela, ver aquela ajuntada da cabeça com o ombro e da mão com a cintura, as ancas dançando levinho pro corpo todo sorrir, o que eu amava era mais o fenômeno natural da roda de gente do que a invocação dos meus delírios de grandeza, o que eu queria era um saber do corpo, era o arrepio que me dá onde eu tenho a pela fina bem quando ela assopra a fumaça do cigarro na minha cabeça e com suas mãos lisas e de grandes garras me afaga esse o coração mundano que levo no peito.

  • segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

    Um exercício

    "Seu Zé Pelintra do morro, preciso de você no meu socorro...A vida sem você não vale nada, venha me ajudar, Zé Camarada..."

    -

    Essa vontade de escrever e pintar só quando me dá na telha, será que um dia vai me dar dinheiro à vera, bancar o gás e o feijão? Sabe como é, se fosse pra ficar à toa, só pensando na morte da bezerra até ter algo a dizer sobre a Morte ou sobre a Bezerra, era melhor não tem pretensões de me livrar do bate-ponto, isso pra não falar do bafo dos colegas sem desjejum até as 10h e o barulho de máquina que inevitavelmente toma os corredores de todas as repartições, fabricas, edifícios, praças e parques onde se compra e se vende a mão de obra a troco de bananas.

    Por um ou dois dias - deve ser na ovulação - eu tomo aquele gás e me empenho, penso que vou escrever que nem um lutador de boxe ou um músico erudito, sentar a bunda na cadeira e dizer um tanto de coisas ou nada, de repente uma reflexão protofilosófica, quem sabe num dia melhor tomo umas dicas no chatgpt e invento uma história de três irmãs apartadas, ou uma menos audaciosa de um assassinato na surdina, quem sabe personagens-mobília contando as desapropriações em um bairro suburbano, depende da situação, meus amores, o negócio é que fora da ovulação me sobra pouco. Folículos se desprendendo das minhas vísceras, sensação de morte iminente, a musculatura rija impulsionando o cérebro a me mandar fazer caretas de nojo e dor, isso pra não falar dos dias de sangramento, que são um negócio à parte.

    Mas vamos falar dos dias de sangramento, já que não tem nada melhor pra falar. Esses são os piores dias, andar que nem uma pata com o algodão ultraprocessado ralando nos grandes lábios o dia inteiro, e se você vive em uma megalópole há grandes chances de seu ciclo não alinhar com a lua, mas com as máximas de 40 graus sobre quilômetros de asfalto recém colado às setenta camadas de velhos asfaltos que substituíram todas as possíveis camadas porosas de terra diretamente em direção ao magma terrestre e toda a sua gana de romper em lava por cima das nossas cabeças e nossas invenções estapafúrdias. Um calor, minha gente!

    Se eu vivesse como uma ancestral pré colonizações, passaria os quatro ou cinco dias (depende da fortuna do mês) de cócoras no meio do mato a sangrar diretamente sobre a terra tal qual um animal abatido pela força sobrenatural do acaso (e da cadeia alimentar), sujeita a toda sorte de predadores e mistérios que nós não vemos a olho nu, no entanto não há uma chance sequer de eu me isentar dessa fervorosa vida citadina com seus aluguéis superfaturados pra ir me esconder no sítio, até porque não tenho vovó prestes a morrer em sítio nenhum muito menos vou gastar meus suados vinténs em prestações num terreno em presidente prudente.

    Se alguém vier me sugerir um copo de silicone pra coletar meu sangue menstrual, faça o favor de se despermitir e pensar detidamente se não é o caso de só segurar a minha mão e chorar comigo de beleza e horror por esse corpo uterino, altamente oscilante e certamente fecundo; tanto eu já usei o recurso por anos, inclusive diluindo o sangue pra colocar na horta de ervas medicinais impróprias para o cozimento (permitidas somente para feitiços e maldições), quanto não pretendo mais usar, dado que certa feita, de um dia pro outro, ao atravessar uma grande avenida logo depois de sair do trabalho, eu estava em direção ao ponto de ônibus mais movimentado da região e uma consciência feroz me atingiu como um raio: meu deus, eu estava andando com um copinho miúdo dentro de mim!

    Sem hesitar por nenhum segundo, aproveitando o sinal fechado para pedestre no meio das duas vias em que corriam centenas de carros em duas direções opostas, na mesma hora umedeci com saliva os dois dedos humanos capazes de fazer uma pinça, levantei a saia, empurrei a calcinha pro lado e engatei o copinho nos dedos, puxando-o pra fora do meu corpo em um grande ato de liberdade coroado pelo sangue vívido que se esparramou como uma suculenta fruta madura sobre a calçada e os sapatos gastos dos transeuntes. 


     

    quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

    Uma memória

    A casa da vó era enfeitada por alguns itens dos quais me lembro detalhadamente. Uma mesa de canto com tampo de vidro e grossos pés de alumínio dourado que destoava do aspecto prosaico do restante da casa. Nessa mesa minha vó colocava uma toalha de crochê quase puída e por cima da toalha havia um pote de vidro imitando aquele tipo italiano e uma Nossa Senhora de Aparecida feita de madeira e gesso. Muito criança, eu preferia o vidro pela transparência, pelo peso e pela solidez, e especialmente pelo ineditismo daquele material na minha vida, o que o fazia parecer meio mágico. Depois, na puberdade, passei a preferir a santa um pouco pela ambiguidade do que ela evocava em mim, um pouco por vontade de roubar o manto de veludo e pedras brilhantes que minha vó não deixava a gente pegar. É que eu me compadecia daquela cara de pena da santa, às vezes até me vinham lágrimas nos olhos e eu queria que soubessem do meu amor por ela, mas eu também tinha raiva, queria rasgar o mantinho de veludo e jogar as pedras brilhantes no ralo. 

    Mais adiante, havia uma mesa de compensado que já estava corroída, mas ainda sustentava a tevê, um bibelô de elefante, uma bailarina de porcelana e em uma das prateleiras tinha naquela coleção inexplicável de coisas que minha vó não jogaria fora: papeizinhos que ela não sabia ler, um cortador de unha antigo, uns esmaltes velhos, o controle da tevê que ninguém usava, umas pilhas e um jogo de baralho desfalcado que meu tio menor não levou quando casou e foi embora. 

     É claro que nem uma mesa nem outra evocava um tempo antigo glorioso, nem mesmo remotamente evocavam um ar pastoril, mas sim a límpida decadência de móveis comprados já em São Paulo, muito longe de Minas. E bem depois que o susto que a vó tinha do apito das fábricas ter passado. Eram moveizinhos em que se via uma única qualidade: alguém teve a oportunidade de pegá-los pra si no único e valioso momento mais oportuno, duas sortes envoltas em outras sortes, chances daqueles que pouco escolhem em todos os assuntos. Na casa dos pobres tudo é remendado e, dando-se um jeito, é possível espremer algumas belezas. Certamente uma das mesinhas era um ganho de alguma vizinha desprendida, um rolo feito pelo avô na jogatina antes da tuberculose, e aquele da tevê tinha muito uma cara de crediário em loja de departamento, pra falar a verdade...Lembra, mãe?

    Na sala era isso e um sofá, e mais adiante havia um enorme martelo pendurado na parede úmida que dividia a sala da cozinha, era um objeto decorativo que se via logo da entrada da casa, de tão inesperado na paisagem monocromática que formava todo o resto. Na minha mente essa fotografia do martelo soa agonizante, apesar do sublime dos bibelôs mantidos por tantas décadas e apesar do restante, que é trivial e me comove não pelo que é em si, mas pela minha própria natureza de cabra que lambe sal e se satisfaz. É que o objeto inesperado pendurado por dois pregos tinha um quê de Jesus Cristo desde que eu era pequena e tinha visto o Senhor pendurado na cruz na Capela de Santa Luzia, aquela cena terrível e o Jesus erótico, difícil de assimilar pra uma criança pequena. Tão difícil quanto assimilar o contraste entre o ordinário da casa com seus poucos mas vigorosos esforços de beleza, e o inexplicável e enorme martelo pendurado sozinho na parede, o único objeto pendurado em toda a casa e por isso digno do esforço envolvido em ferramentas, pregos, planos de onde e como pendurar. 

    O que é aquele martelo?, perguntei pra minha mãe um dia, quando eu já formulava frases tanto mais complexas quanto mais polidas, e minha mãe muitíssimo indiferente disse que comprou em Itu. Então foi você que comprou, mãe?, eu perguntei maravilhada, salivando com a incógnita, a essa altura o martelo já me parecia um símbolo e eu me perguntava porque ela haveria de comprar um enorme martelo e não um enorme qualquer outra coisa, que eu sabia haver em Itu, mas ela só disse que foi. E seguiu segurando as sacolas, minha mochila, o peso do dia trabalhado, a falta do meu pai, eu, e tudo rolando escadaria abaixo nas mãos daquela mulher obstinada de dia e quase vencida à noite pelas minhas perguntas sem jeito e pelos três intermináveis lances de escada, então chegar na rua, e daí andar ainda mais até a nossa casa, onde ela ainda teria que fazer a janta. 

      

    quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

    Rascunho de auto romance

    Fui uma criança infeliz. É uma dura sentença, eu sei. Mas eu era emocionalmente abandonada. 

    ---

    Observação: Deixei esse rascunho aqui no blog entre 2023 e 2025, provavelmente em 2023, não dá pra saber porque eu acabei de mexer no texto sem querer e mudei a data original do rascunho. Eu tô tateando a plataforma de novo, relembrando os recursos que tenho, voltando a escrever um pouquinho aqui, um pouquinho no diário à mão e no diário de sonhos. Ontem descobri que perdi um portfolio com pinturas bem antigas, bem, perdi no lodo que deve ser o monte de dados online, outra coisa recuperei mais ou menos, num arquivo de uma plataforma antiga, e o blogger tá aqui ainda, então resolvi usar. Além disso, tenho a nova página no Substack, fiz minha primeiríssima postagem ontem. Resolvi publicar esse rascunho aqui do blog pra deixar bem evidente - pra mim mesma - que nem eu quero mais um auto romance, nem eu acho esse termo bom ou possível (tá na moda autoficção, escrevivência, essas coisas que no meu íntimo considero superficiais, pra mim o que existe é ou arte ou cultura de massa); bom, onde eu estava? Certo, além do termo ser ruim e da ideia de definir um fpormato antes de escrevê-lo me deixar ressabiada, a solitária frase que fui capaz de escrever, sobre ter sido uma criança infeliz, é uma lástima. Nem é uma dura sentença - muitas crianças são infelizes no Brasil. E essas três orações (o que fui - o que a afirmação é sob meu julgo - a justificativa da afirmação), bom, são tão definitivas e vulgares que foram tema recorrente nesses últimos cinco ou seis anos de psicanálise, motivo de chororô, etc. E dessa realidade nua, crua, e com admitida dimensão fantasiosa (esse é meu trauma, meu sintoma), só decorre isso: um ralo romance de três orações insubordinadas. Que por sua vez (não vou desperdiçar meu português) combinam muito mais com a minha tendência ao drama e à enunciação destemida do que considero "verdades" do que com uma possível, potencial, quem sabe um dia, tendência à escrita de ficção. 

    Um pouquinho por dia

     Escrever um pouquinho por dia, mesmo que eu pense que não há nada a dizer. Escrever um pouquinho por dia, mesmo que me convidem pra jantares, ou que seja eu quem tenha que cozinhar e lavar a louça. Escrever um pouquinho por dia, na alegria ou na tristeza, na saúde e na doença, até que a morte me separe da palavra. Escrever um pouquinho por dia mesmo que a essa altura, às quase onze da noite e eu já semi-sonâmbula, eu já tenha levantado, corrido, passeado o cachorro, feito o almoço, trabalhado, acompanhado família em tarefas, ido aos correios, ido à padaria, colocado a carne pra descongelar, lavado a manta sofá. Escrever um pouquinho por dia, nem que não seja naquela intimidade furiosa do diário que faço à mão, nem que não seja no novo blog no substack que ainda superestimo depois de anos de trabalho, mudanças, crise familiar, casamento, contas a pagar, anos de eu me desacreditando e enfim reaprendendo a sonhar. Escrever um pouquinho por dia, que seja nesse refúgio que é o blogger, mesmo que eu pense que não há nada a dizer, no fundo sempre há algo a dizer, e o mais importante é que eu topei esse desejo que eu tenho de inventar.

    domingo, 30 de abril de 2023

    Eu estive no rio e achei que a cidade fedia a mijo

    "Esta cidade sofre de uma febre que de tempos em tempos causa essas alucinações de belepóque. Bota abaixo, vamos começar tudo de novo! É o parasita modernizador, a malária de Miami, que antes foi malária de Paris. No delírio passado, arrancaram uma montanha da paisagem para enterrar um pedaço de mar, higienizaram tudo. No próximo, não duvido, vão higienizar de vez os cariocas."


    Victor Heringer, que to lendo finalmente, e me dá arrepios de medo, acho que ele se matou, e acho que eu entendo tudo. Estive no rio, o maior fedô de mijo da porra, não se acha um lugar pra tomar um copo d'água, o calor é sufocante e as pessoas são felizinhas demais.

    quinta-feira, 16 de março de 2023

    eu acho que precisamos de uma mudança radical

     dia 1

    oi **,
    é lindo que tenhamos tantos nomes um pro outro.
    e curioso que quando te escrevo, escrevo pra um você em mim, porque tem um você com quem eu falo que - em termos - independe do eu que você tem pra você mesmo.
    denso né
    tão tenso
    tenso, tão desavisado meu tesão
    vive um momento tenso
    livre leve solto e de coração:
    te amo
    beijos molhados

    dia 2
    nessa alta madrugada
    penso que esse filme que passou foi bom
    e que o filme que vai passar
    tem um atelie colorido e cibernético iluminado
    com um bar retrô nos fundos
    uma fauna diversa
    bichos de criar no quintal
    e a casa de deitar em poofys fofíssimos
    livros e velas
    alguma magia há no porvir

    dia 3
    um diario musical em que seja possivel subverter o texto
    e suas intenções de domínio pela definição
    de especificação pelo contorno

    toda palavra é limitada?
    ou isso é só mais uma ilusão de ótica do cistema?
    deus, pátria, família
    a gente em frangalhos
    que tempos

    sábado, 18 de fevereiro de 2023

    Inferno brasilis

    CULTO, CULTO, CULTO O TEMPO TODO. PROSPERE, PROSPERE, AME A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS

    MAS NEM TODO LUGAR É IGREJA, NÉ?




    quinta-feira, 12 de maio de 2022

    SESSÃO "Texticulos nunca postados"

    Quem me conhece sabe que sou cria, eu já presenciei cada cena que deixou a vila inteira de bucho virado, mas minha gana de estudar, minha história de vida de branquinha deslocada e especialmente a garra quase inexplicável de meus pais sedentos me ofertaram o privilégio de me escolarizar em instituições que me aceitaram olhar pra cara todos os dias, algumas delas mais que legitimadas pelo estado burguês de direito e onde também circularam jovens revoltados com suas vidas condôminas medíocres e vazias de som e fúria. Isso desde bem pequena abriu uma buceta no meu espírito, não tô zuando não, é uma fenda funda que foi gestando duas de mim, estratégia de sobrevivência psíquica frente a contradições bem brasileiras e bem omitidas pelos adultos "responsáveis".
    Pequena ainda, pouco mais do que cinco anos, eu era capaz de dizer sem nenhuma vergonha alguns palavrões escatológicos e pornográficos na frente de adultos respeitados por toda uma comunidade, bem como já vivia no meu espírito consistente a capacidade de discernir más intenções sexuais em adultos e pares masculinos que viessem tentar tocar meu sexo, pelo que sou uma bem sucedida espécime única de amiga não estuprada dentre as minhas amigas letradas. Isso não é mérito nenhum, só estou dizendo que nasci encapetada, como diz o outro, e tanto quanto eu era capaz de dizer sem vergonhices e saber que não se toca na minha vagina assim sem mais nem menos, era perfeitamente possível que eu viesse a agir de má fé em avaliações, processos seletivos ou competições esportivas, colocando todo meu corpo e mente a serviço de um mal maior que é a indisciplina somada à imoralidade. Certa feita, num campeonato interescolar de handebol - o esporte com potencial violento que me aprazia profundamente - eu discordei da capitã brutamontes do time adversário e fui capaz de abandonar todo o meu próprio time, que mesmo concordando com meu diagnóstico não teve a mesma infeliz capacidade que eu tive, de tirar a camisa e mostras os peitos pra cerca de trezentos alunos em puberdade, escandalizando duma só vez os meus próprios diretores e mais ou menos cinco bairros vizinhos. Se me orgulho disso, é certo que não, mas também ainda não nasceu uma vergonha impossível neste corpo que escreve pra sabe deus quem, motivo pelo qual eu não posso sair por aí inventando que de uns anos pra cá passei a ser mais contida. A coisa mais verdadeira a dizer é que o mundo me conteve, se me entendem. Posso ter me habituado melhor às regras sociais de convívio, é claro que sim, até porque chega uma hora que tomar socos e pontapés dos outros fica um tanto indigesto, e cansa de pena ter que ver seu pai e sua mãe lamentando o bug genético que te originou inexplicavelmente indiscreta, no entanto se habituar não é o mesmo que concordar, meus senhores.
    |Depois que cresci mais um pouco as situações propícias pro meu showbizz não calculado foram ficando mais indisponíveis, se é que me entendem, pois o trabalho braçal se apresentou pra mim na mesma ocasião em que eu me surpreendia com o crescimento draconiano de pêlos pubianos na minha púbis nada cinderela, o que significa que não só eu precisava como eu havia aprendido a querer fortemente ter dinheiro o quanto antes, e o dinheiro, como é sabido de todos nós brasileiros, é um algo que se impõe reluzente sobre toda e qualquer demanda por civilidade que em algum país desenvolvidíssimo viesse a ser a prioridade indiscutível de um projeto de cidadão. Aqui, minha gente, deixamos essas prioridades em segundo plano. Meu caso era esse: se eu não me comportasse, ia virar pastinha de carne tenra rapidinho.
    No fim das contas cresci e me entristeci, e não há mais o que dizer além de que estou ensaindo pra que em algum dia glorioso do meu futuro provavelmente reumático eu reúna as histórias anteriores à essa grande tristeza operária num tom meio jocoso, quem sabe, que possa divertir um ou outro que também tenha memória de ter sido um dia uma Criança Terrível. 

    SESSÃO "Texticulos nunca postados"

    Esse é o Brasil: uma trabalhadora, empregada doméstica, teve que levar seu filho pro trabalho, onde vinha dormindo há dias. Os patrões pedem que ela saia pra passear com os cachorros e ficam responsáveis pelo cuidado da criança, de cinco anos. A criança começa a pedir pela mãe e é autorizada a, sozinha, sair em sua procura.
    É morto então o pequeno, caindo do alto de uma torre residencial, vítima direta do descaso animalizante dos burgueses safados e de um sistema que faz com que persista aqui o genocídio da juventude negra e todo um sistema de opressão, espoliação e abuso constantes, organizados, coerentes com um projeto de governo cada vez mais e mais declaradamente racista, fascista, capitalista selvagem, como queiram chamar uma organização criminosa que precisa ser não só derrubada agora, em sua formação vigente, como superada em termos de estrutura e capilarização nas nossas vidas pessoais, organizações e coletivos. Afinal, como admitimos a vaguidão da crítica da falta de mobilizacao ao mesmo tempo que endossamos a vaguidão da ideia de o racismo ser um problema moral de brankkkos? Como somos anti tudo, e pró nada? Será que estamos fazendo as perguntas corretas? Qual é o nosso alvo?
    O Brasil não é um país democrático, aliás, e por isso não há o que ser resgatado aqui, mas sim o que ser disputado. Nós mal começamos. Aqui o sujeito negro é animalizado e a violência de estado praticada contra ele persiste apesar de todos nós.
    (...não continuei)