A casa da vó era enfeitada por alguns itens dos quais me lembro detalhadamente. Uma mesa de canto com tampo de vidro e grossos pés de alumínio dourado que destoava do aspecto prosaico do restante da casa. Nessa mesa minha vó colocava uma toalha de crochê quase puída e por cima da toalha havia um pote de vidro imitando aquele tipo italiano e uma Nossa Senhora de Aparecida feita de madeira e gesso. Muito criança, eu preferia o vidro pela transparência, pelo peso e pela solidez, e especialmente pelo ineditismo daquele material na minha vida, o que o fazia parecer meio mágico. Depois, na puberdade, passei a preferir a santa um pouco pela ambiguidade do que ela evocava em mim, um pouco por vontade de roubar o manto de veludo e pedras brilhantes que minha vó não deixava a gente pegar. É que eu me compadecia daquela cara de pena da santa, às vezes até me vinham lágrimas nos olhos e eu queria que soubessem do meu amor por ela, mas eu também tinha raiva, queria rasgar o mantinho de veludo e jogar as pedras brilhantes no ralo.
Mais adiante, havia uma mesa de compensado que já estava corroída, mas ainda sustentava a tevê, um bibelô de elefante, uma bailarina de porcelana e em uma das prateleiras tinha naquela coleção inexplicável de coisas que minha vó não jogaria fora: papeizinhos que ela não sabia ler, um cortador de unha antigo, uns esmaltes velhos, o controle da tevê que ninguém usava, umas pilhas e um jogo de baralho desfalcado que meu tio menor não levou quando casou e foi embora.
É claro que nem uma mesa nem outra evocava um tempo antigo glorioso, nem mesmo remotamente evocavam um ar pastoril, mas sim a límpida decadência de móveis comprados já em São Paulo, muito longe de Minas. E bem depois que o susto que a vó tinha do apito das fábricas ter passado. Eram moveizinhos em que se via uma única qualidade: alguém teve a oportunidade de pegá-los pra si no único e valioso momento mais oportuno, duas sortes envoltas em outras sortes, chances daqueles que pouco escolhem em todos os assuntos. Na casa dos pobres tudo é remendado e, dando-se um jeito, é possível espremer algumas belezas. Certamente uma das mesinhas era um ganho de alguma vizinha desprendida, um rolo feito pelo avô na jogatina antes da tuberculose, e aquele da tevê tinha muito uma cara de crediário em loja de departamento, pra falar a verdade...Lembra, mãe?
Na sala era isso e um sofá, e mais adiante havia um enorme martelo pendurado na parede úmida que dividia a sala da cozinha, era um objeto decorativo que se via logo da entrada da casa, de tão inesperado na paisagem monocromática que formava todo o resto. Na minha mente essa fotografia do martelo soa agonizante, apesar do sublime dos bibelôs mantidos por tantas décadas e apesar do restante, que é trivial e me comove não pelo que é em si, mas pela minha própria natureza de cabra que lambe sal e se satisfaz. É que o objeto inesperado pendurado por dois pregos tinha um quê de Jesus Cristo desde que eu era pequena e tinha visto o Senhor pendurado na cruz na Capela de Santa Luzia, aquela cena terrível e o Jesus erótico, difícil de assimilar pra uma criança pequena. Tão difícil quanto assimilar o contraste entre o ordinário da casa com seus poucos mas vigorosos esforços de beleza, e o inexplicável e enorme martelo pendurado sozinho na parede, o único objeto pendurado em toda a casa e por isso digno do esforço envolvido em ferramentas, pregos, planos de onde e como pendurar.
O que é aquele martelo?, perguntei pra minha mãe um dia, quando eu já formulava frases tanto mais complexas quanto mais polidas, e minha mãe muitíssimo indiferente disse que comprou em Itu. Então foi você que comprou, mãe?, eu perguntei maravilhada, salivando com a incógnita, a essa altura o martelo já me parecia um símbolo e eu me perguntava porque ela haveria de comprar um enorme martelo e não um enorme qualquer outra coisa, que eu sabia haver em Itu, mas ela só disse que foi. E seguiu segurando as sacolas, minha mochila, o peso do dia trabalhado, a falta do meu pai, eu, e tudo rolando escadaria abaixo nas mãos daquela mulher obstinada de dia e quase vencida à noite pelas minhas perguntas sem jeito e pelos três intermináveis lances de escada, então chegar na rua, e daí andar ainda mais até a nossa casa, onde ela ainda teria que fazer a janta.