Pequena ainda, pouco mais do que cinco anos, eu era capaz de dizer sem nenhuma vergonha alguns palavrões escatológicos e pornográficos na frente de adultos respeitados por toda uma comunidade, bem como já vivia no meu espírito consistente a capacidade de discernir más intenções sexuais em adultos e pares masculinos que viessem tentar tocar meu sexo, pelo que sou uma bem sucedida espécime única de amiga não estuprada dentre as minhas amigas letradas. Isso não é mérito nenhum, só estou dizendo que nasci encapetada, como diz o outro, e tanto quanto eu era capaz de dizer sem vergonhices e saber que não se toca na minha vagina assim sem mais nem menos, era perfeitamente possível que eu viesse a agir de má fé em avaliações, processos seletivos ou competições esportivas, colocando todo meu corpo e mente a serviço de um mal maior que é a indisciplina somada à imoralidade. Certa feita, num campeonato interescolar de handebol - o esporte com potencial violento que me aprazia profundamente - eu discordei da capitã brutamontes do time adversário e fui capaz de abandonar todo o meu próprio time, que mesmo concordando com meu diagnóstico não teve a mesma infeliz capacidade que eu tive, de tirar a camisa e mostras os peitos pra cerca de trezentos alunos em puberdade, escandalizando duma só vez os meus próprios diretores e mais ou menos cinco bairros vizinhos. Se me orgulho disso, é certo que não, mas também ainda não nasceu uma vergonha impossível neste corpo que escreve pra sabe deus quem, motivo pelo qual eu não posso sair por aí inventando que de uns anos pra cá passei a ser mais contida. A coisa mais verdadeira a dizer é que o mundo me conteve, se me entendem. Posso ter me habituado melhor às regras sociais de convívio, é claro que sim, até porque chega uma hora que tomar socos e pontapés dos outros fica um tanto indigesto, e cansa de pena ter que ver seu pai e sua mãe lamentando o bug genético que te originou inexplicavelmente indiscreta, no entanto se habituar não é o mesmo que concordar, meus senhores.
|Depois que cresci mais um pouco as situações propícias pro meu showbizz não calculado foram ficando mais indisponíveis, se é que me entendem, pois o trabalho braçal se apresentou pra mim na mesma ocasião em que eu me surpreendia com o crescimento draconiano de pêlos pubianos na minha púbis nada cinderela, o que significa que não só eu precisava como eu havia aprendido a querer fortemente ter dinheiro o quanto antes, e o dinheiro, como é sabido de todos nós brasileiros, é um algo que se impõe reluzente sobre toda e qualquer demanda por civilidade que em algum país desenvolvidíssimo viesse a ser a prioridade indiscutível de um projeto de cidadão. Aqui, minha gente, deixamos essas prioridades em segundo plano. Meu caso era esse: se eu não me comportasse, ia virar pastinha de carne tenra rapidinho.
No fim das contas cresci e me entristeci, e não há mais o que dizer além de que estou ensaindo pra que em algum dia glorioso do meu futuro provavelmente reumático eu reúna as histórias anteriores à essa grande tristeza operária num tom meio jocoso, quem sabe, que possa divertir um ou outro que também tenha memória de ter sido um dia uma Criança Terrível.
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