"Seu Zé Pelintra do morro, preciso de você no meu socorro...A vida sem você não vale nada, venha me ajudar, Zé Camarada..."
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Essa vontade de escrever e pintar só quando me dá na telha, será que um dia vai me dar dinheiro à vera, bancar o gás e o feijão? Sabe como é, se fosse pra ficar à toa, só pensando na morte da bezerra até ter algo a dizer sobre a Morte ou sobre a Bezerra, era melhor não tem pretensões de me livrar do bate-ponto, isso pra não falar do bafo dos colegas sem desjejum até as 10h e o barulho de máquina que inevitavelmente toma os corredores de todas as repartições, fabricas, edifícios, praças e parques onde se compra e se vende a mão de obra a troco de bananas.
Por um ou dois dias - deve ser na ovulação - eu tomo aquele gás e me empenho, penso que vou escrever que nem um lutador de boxe ou um músico erudito, sentar a bunda na cadeira e dizer um tanto de coisas ou nada, de repente uma reflexão protofilosófica, quem sabe num dia melhor tomo umas dicas no chatgpt e invento uma história de três irmãs apartadas, ou uma menos audaciosa de um assassinato na surdina, quem sabe personagens-mobília contando as desapropriações em um bairro suburbano, depende da situação, meus amores, o negócio é que fora da ovulação me sobra pouco. Folículos se desprendendo das minhas vísceras, sensação de morte iminente, a musculatura rija impulsionando o cérebro a me mandar fazer caretas de nojo e dor, isso pra não falar dos dias de sangramento, que são um negócio à parte.
Mas vamos falar dos dias de sangramento, já que não tem nada melhor pra falar. Esses são os piores dias, andar que nem uma pata com o algodão ultraprocessado ralando nos grandes lábios o dia inteiro, e se você vive em uma megalópole há grandes chances de seu ciclo não alinhar com a lua, mas com as máximas de 40 graus sobre quilômetros de asfalto recém colado às setenta camadas de velhos asfaltos que substituíram todas as possíveis camadas porosas de terra diretamente em direção ao magma terrestre e toda a sua gana de romper em lava por cima das nossas cabeças e nossas invenções estapafúrdias. Um calor, minha gente!
Se eu vivesse como uma ancestral pré colonizações, passaria os quatro ou cinco dias (depende da fortuna do mês) de cócoras no meio do mato a sangrar diretamente sobre a terra tal qual um animal abatido pela força sobrenatural do acaso (e da cadeia alimentar), sujeita a toda sorte de predadores e mistérios que nós não vemos a olho nu, no entanto não há uma chance sequer de eu me isentar dessa fervorosa vida citadina com seus aluguéis superfaturados pra ir me esconder no sítio, até porque não tenho vovó prestes a morrer em sítio nenhum muito menos vou gastar meus suados vinténs em prestações num terreno em presidente prudente.
Se alguém vier me sugerir um copo de silicone pra coletar meu sangue menstrual, faça o favor de se despermitir e pensar detidamente se não é o caso de só segurar a minha mão e chorar comigo de beleza e horror por esse corpo uterino, altamente oscilante e certamente fecundo; tanto eu já usei o recurso por anos, inclusive diluindo o sangue pra colocar na horta de ervas medicinais impróprias para o cozimento (permitidas somente para feitiços e maldições), quanto não pretendo mais usar, dado que certa feita, de um dia pro outro, ao atravessar uma grande avenida logo depois de sair do trabalho, eu estava em direção ao ponto de ônibus mais movimentado da região e uma consciência feroz me atingiu como um raio: meu deus, eu estava andando com um copinho miúdo dentro de mim!
Sem hesitar por nenhum segundo, aproveitando o sinal fechado para pedestre no meio das duas vias em que corriam centenas de carros em duas direções opostas, na mesma hora umedeci com saliva os dois dedos humanos capazes de fazer uma pinça, levantei a saia, empurrei a calcinha pro lado e engatei o copinho nos dedos, puxando-o pra fora do meu corpo em um grande ato de liberdade coroado pelo sangue vívido que se esparramou como uma suculenta fruta madura sobre a calçada e os sapatos gastos dos transeuntes.
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