Uma oração
- Pombagira Sete Saias, boa noite, a senhora me dê licença, vim só agradecer a boa companhia e pedir um axé nas minhas contas e nesse algodão colhido suado que eu uso pra fiar as minhas vaidades.
A Pombagira dá boa noite muito charmosa, gargalha largo e me arrepia do calcanhar até a nuca, abraça apertado enquanto eu derreto e sussurra um segredo no meu ouvido, então e. Eu logo penso que não tem lugar melhor no mundo se não na festa dela macumba dela.
- Que seus caminhos estejam abertos, que seus caminhos sejam iluminados, é só me chamar que eu falo contigo, tá bom…
Ela pega o galho de arruda e faz o rezo no meu baixo ventre, na minha cabeça que trovoa, dá a volta toda pelo meu corpo e eu sinto que arranca maledicências de trás de mim. Do nosso lado o Tiriri garboso me dá um sorriso e eu lembro que sonhei com ele não tem tanto tempo, ao que meu corpo expande, e sinto meus braços fortes na mesma medida em que a cabeça reorienta a rota dos pés. Volto meus olhos pra Sete Saias e digo que ela é tão linda , mas àquela hora eu não calculava que sem calcular que o que eu queria era aquela gargalhada, era ver ela fazer dançar o cavalo dela, ver aquela ajuntada da cabeça com o ombro e da mão com a cintura, as ancas dançando levinho pro corpo todo sorrir, o que eu amava era mais o fenômeno natural da roda de gente do que a invocação dos meus delírios de grandeza, o que eu queria era um saber do corpo, era o arrepio que me dá onde eu tenho a pela fina bem quando ela assopra a fumaça do cigarro na minha cabeça e com suas mãos lisas e de grandes garras me afaga esse o coração mundano que levo no peito.
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