
tudo indicava uma transição tranquila, já que agora o menino estava pra mim como eu estou pra um mendigo de bangladesh, mas não! não não não! o meu destino estava seco, paupérrimo, doente...e por meio de julgamentos errôneos no que diz respeito a variação das circunstâncias amorosas da vida, me entreguei a vertigem e me atirei de peito ao mundo sem nenhuma polidez. bebi, dancei, rodei, saí, amei loucamente por uma noite, viajei, fumei, gritei, bati, amei loucamente por um mês, fugi, corri, ri...desesperadamente. larguei mão do discurso de sempre "eu metafísica, ele hierárquico" pra explorar a cruel condição do "eu no mundo, ele fora de mim".
1.1 a festa
me deixei levar ao que supostamente consola: fui a uma festa. amigos (quase todo meu circulo social), amigas (todas impossíveis, fotografando as proprias fraquezas...), entorpecentes, vodka (gosto de vodka e é recíproco , ela sempre gosta de mim). o menino estava presente, surpreendentemente, ele estava...dei oi, perguntei se tudo estava bem e saí pelo jardim. milhares de vozes sussuravam um tormento no pé do meu ouvido: ele me quis, ele me quis, ele me quis e mesmo assim quer te reinar, ele me quis! eu queria drinks errados num copinho fajuto, trocar idéias ou não...me distraí. e o menino lá. de repente, ele tomou a coragem que nem era dele, mas do uísque e disse sem rodeios: "você é cuzona..".
que quer dizer cuzona? eu tenho o cu grande? imenso? impossivel, meu ultimato foi "eu sei que você dá o cu", depois disso jurei que não o deixaria ser de verdade...impossível, eu num estado desses e o menino sem cara querendo discutir o tamanho do meu cu. pensando bem...possivel! ja que tudo que lhe dizia respeito era sobre cu. o tamanho e, principalmente, o que saia dele. não pude evitar o resultado desse racicínio: ri. o menino não pôde evitar o resultado do meu resultado: me atacou.
1.2 conclusões dispersas em ralos momentos de reflexão e auto-análise
ao contrário do professor de alegres colóquios, nao "tentei argumentar que condenar a estetica em funçao da origem social é um procedimento arriscado", o menino só fazia condenar a estética dos (não) fatos sem sequer passar pelo intrasponível espaço da argumentação. e ele pensa que eu não sei, mas a origem social e a textura dos cabelos eram analisadas rigorosamente segundo suas leis. o menino, diabolicamente, transportava o intrasponível, as razões do amor não lhe alcançar divinamente. e eu sofria com as discussões que regavam esses transportes...
eis o meu credo: "pois também Cristo sofreu no lugar de vocês deixando-lhes um exemplo, para que sigam seus passos." (Pedro 2; 21). se sofro acabo por aprender que a cruz é sim bem mais pesada que a espada, não há como negar, mas enquanto a razão da espada é imediatamente o sangue, a razão da cruz é perpétua e gloriosa.
1.3 fundo da terra do fundo do poço
em meio a euforia, abandonei meu corpo. na infinita cegueira da irreflexão, me achei em estado de privilégio acreditando-me pobre de tudo, carente o suficiente pra poder, sem dó nem piedade nem prudência, doar meu corpo e minha consciência a leviandade do tempo terreno...
nota inelutável:
euforia (s.f.): 1.sensação fisiológica de bem-estar; 2.facilidade com que se suporta uma doença ou uma crise que a modifica.
Sério, gostei demais dos seus textos :)
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