EM PROCESSO
Oi meninas no vídeo de hoje vou contar pra vocês tres vezes eu que eu também não gozei!
PRIMEIRO ATO
[Vê-se uma heroina, um coro à esquerda, um microfone com logo de TV à direita. O telão está desligado. Alguns objetos estarão numa caixa à frente dos atores]
[Entrevistador monstro-robô: luz no microfone com logo de tv e no telão] . Oq vc acha do "O bafão das duas artistas rad e trans brigando no evento" (trecho grifado no telão)
[heroína] Nah, acho difícil acreditar em algo como privilégio cis pra maioria das mulheres no brasil. Será se estou ludibriada e a gramática desse bafao não eh essa, do "privilégio", da "imposição", da "escolha"...do "bafão"?!? Duvido, pq na internet eh tudo sobre isso. Até agora NGM explicou pq a artista que fala de maternidade compulsoria e menstruaçao e afins eh transfobica. Quer me explicar? Na minha rua as travestis moram na galeria do rio ou metem o pe e as mulher ou engravida ou apanha ou vira crente, tudo dentro de casa. Acho que a maioria, não sei. Acho que as mulheres negras e indígenas tem vivência e visões e teorias politicamente mais radicais. E tem as putas, com as teorias radicais. E tem as revolucionarias, com as teorias radicais. Oq me impressiona é q essa treta radxtrans no feminismo me parece uma coisa substancialmente produzida no contexto de hiperbolização de questões mto mais semanticas que fundamentais (em termos de politica) nas redes sociais. Resumindo essa pessima opereta que eu acabei de desafinar, eh briga de internet, pq o feminismo q impacta a politica publica, trajetoria militante, producao de teoria, etc eh quase irrelevante, pq eh um espectro do debate encerrado na rede social, nao das militancias. Uma vez uma gata com quem estudei falou que tem questoes mto de nicho urbano-contemporaneo q incindem nada no legado feminista e eu fiquei "putz, sim".
[Entrevistador monstro-robô] 2. Hahaha ah, não entender "privilégio" é uma limitação cognitiva até
[O coro ri]
[heroína] Sério q vc acha que mulher cis tem limitação cognitiva? Seila minha visão não é de pesquisadora, pq mesmo militante, trabalho com homens cis maioria não branca e estou simplesmente humilhada pelo machismo deles e de tudo à volta. Nem por isso eu soco a cara deles igual eu faria com alguem que mostrasse o pau pra mim no onibus (no caso de alguem me ajudar, pq sozinha eu nao sei se faria isso) ou alguem que chamasse meu pai de macaco. Oq é importante é q as categorias classe raça genero estejam em relação dinâmica e a partir disso procuremos os fios que nos unem. A gente precisa se ouvir mais, com mais tempo, a gente tem que se escutar com preciosismo e se frequentar de luva de pelica. A seríssimo, caso de vida ou morte. A gente pegou a interseccionalidade e enfiou no cu. Nossa inteligência colonizada hierarquiza ao inves de tecer rede, pelo que a gente tá fodides, junta o brasil sendo o Brasil, agora o berro é oq, na próxima festinha as gata se mordem de sangrar e os boy lá jogando dinheiro? eu hein.
[o coro, desconfiado, se recompôs conforme a heroina falava o manifesto. Senta e pega bloco de anotações]
Essa ideia de privilegio de mulher cis no sul global nao é exatamente verdade, eh eterea e mto dinamica pq relacionada às subjetividades e à economia dos afetos. Ha reivindicações da pertinencia dessa ideia que rondam a passabilidade cis no ambiente publico, o acesso aos relacionamentos estaveis e à familia, a renda, a empregabilidade etc. Isso tudo é real, tanto quanto as mesmas condições marginalizantes são aplicadas às mulheres. De modos distintos, mas nem por isso hierarquizáveis. Eu penso ate que ela, essa ideia de privilegio cis num pais como o br,, nao pode ser reivindicada como uma categoria sociologica. Formalmente, nesse campo oq há é feminização da pobreza e feminicidio. Vivemos em um tipo de capitalismo
[glitch no telão] [heroína se assusta brevemente, mas volta ao foco] [coro sussurra: "capitalismo]
esse capitalismo em que vivemos é ainda mais terrivel pra todes que somos mulheres cis e trans, lgbtqia+, etc. O "privilegio da mulher cis" diz mto mais respeito à uma condição etera de mulheres cis como contempladas positivamente pela sua posição de gênero. A sério, onde há esse recurso pra classe trabalhadora? O gênero é em si um alienante da humanidade. A adequação não pode ser confundida com emancipação, a adequação só é uma forma diferente de opressão. Ha algumas mulheres verdadeiramente privilegiadas que compoe uma classe que nao ta alimentando comentarios no instagram, percebem
[Entrevistador monstro-robô com glitch "mimimi"] "Mimimi"
As categorias formais sao raça classe genero.
[Coro repete "classe, raça, gênero"]
[Entrevistador monstro-robô passa a emitir ruídos no telão]
[heroína entrega folheto ao coro e todos gritam:] Articuladas, as categorias revigoram o debate, formam politicamente, e nao precisam reivindicar ressentimentos no debate publico, que é essencialmente formativo de novas subjetividades. Precisamos cuidar umas das outras como se tudo fosse nossa única chance, porque assim o é na nossa vida real.
[O porco pára de grunhir, se levanta do chiqueiro e se mostra um homem. Veste uma cartola e um coturno]
[O coro se impressiona, recua e passa a anunciar que é chegado o dia do juizo final]
[heroína] O bafão ai das artiste tretando em praça publica teve transfobia sim e misoginia tambem, e a distância de alguma solidariedade entre nós nesse debate é um cão mijando no meu misticismo revolucionário. CHEGA
[O coro repete "chega!" e avança novamente. A seguir, entoa canção ao fundo]
[heroína] A gente que "faz" cultura tem que ler tudo, Sankara, Pessoa, Krenak.
[heroína veste a capa] Já as gatas, as felinas e as caninas, as lesbi as bi as pu as cis as trans todas temos que nos ler umas às outras com jeito de famintas, mas reverenciando o silêncio meditativo, fazendo o ebó, cantando a mágica,
O breu no humano!
[coro de três acende vela, hasteia bandeira, afia a faca e olha pro porco. O coro grita em guerra e as luzes se apagam]
[Entrevistador monstro-robô é atacado
[heroína] Nós estamos famintas de ler nossas histórias e desejosas de poder ruminar umas às outras sem o nosso desespero tão latino américa de sangue e lágrimas. Nossas mente é só peso pesado, essa é a real. A gente precisa se ouvir mais, com mais tempo, a gente tem que se escutar com preciosismo e se frequentar de luva de pelica. A seríssimo, caso de vida ou morte. A gente pegou a interseccionalidade e enfiou no cu. Nossa inteligência colonizada hierarquiza, nao tece rede, pelo que a gente tá fodides, junta o brasil sendo o Brasil, agora o berro é oq, na próxima festinha as gata se mordem de sangrar e os boy lá jogando dinheiro? CHEGA.
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[os objetos sao guardados na caixa e a cena se recompoe. Escuro]
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SEGUNDO ATO
3. E a tatuagem que a a anitta fez no cy?
Essa história é demais, recebi em casa vindo direto da editora, fui a primeira
TERCEIRO ATO
[O coro marcha cantando até o microfone e toma posse do lugar]
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