domingo, 17 de maio de 2020

Pausa para me lancharem

Mal durmo, durmo mal, ouço estalos, me dirijo às portas, nenhuma abre, tonteio, parece sonho, logo sinto afogar, respiro forte, difícil induzir algum acordo com os demônios, eles estão agitados, também insones
A figura deles anda sendo tirada dos livros junto com as coisas adornadas que me deixavam escapar brevemente
Que tempo, que inferno de país, a vontade de ter ido a tempo, de ter percebido a tempo, de ter trabalhado a tempo de
Que situação a nossa
Tento regular, nada dá certo, tonteio, apoio nos móveis, perdi aptidão enquanto ganhava apetite e não me dei conta, agora isso, um dia sim e três não, os demônios agitados sem suas ficções, esses gatos que mijam em cima da casa inteira, uma vez sonhei com gatos gigantes vigiando grandes construções
Tento regular, falho, é como ser aquele jovem magro do livro que pedia pelo amor de deus general eu tenho medo não me machuque eu amo o verão as janelas abertas as coisas miúdas, sendo ao mesmo tempo o cavalo alado que incendiou toda a memória
[Sendo ao mesmo tempo o Cavalo de Tróia
O incomodo à mesa amorfa/com sua natureza morta]
Dos livros, dos ruídos compostos que me faziam chorar de divindade, dos poemas que declamei alto, daquela receita, de como eu amava, de tudo
Acho que estamos todos sim, afinal de contas se não alguém me diga das sobras, num náufrago e por isso devíamos ter sido menos complacentes com a ideia de barco de todos, de humanos de todo, e com as outras infames pirofagias da linguagem também
Não tem caminho possível, ainda não acordei, mais uma porta, acho que se tontear de novo é melhor deixar e tentar lutar, paciência, as vezes não há como escapar disso, mas não tenho ferramenta nenhuma porque nunca mais choveu por aqui
E o gato comeu minha língua

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