quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Lalangue

eu tenho uma história de horror pra contar. tudo que fui e vivi até aqui era um inebriamento sem desdobramentos, uma febre alta, vertigem, alucinações. meu pai foi alcoolatra dos 16 aos 54 anos, e ao fim deste ciclo ele já estava sem nenhuma de nós e cagava sangue.

nós éramos três dentro de casa e muitas fora dela, dentro de outras casas, crescidas em outras famílias, legisladas por muitos estados. em casa nós três nos revezávamos em rezos e ebós, todos curtidos na água que pinga da chuva pra varanda arejada em que lutávamos pra passar mais tempo, todos incensados com as ervas que nasciam de nosso cultivo. fossem as ervas plantadas em jardins muito altivos e finérrimos, teríamos nos permitido mais calma polidez? fossem as ervas crescidas em suntosos palácios de segredos e rococós, teríamos salvado ele? teríamos salvado ele que era o nosso? teríamos podido? 

haverá quem perceba a intuição feroz, de intuição violenta, que há na intencionalidade campesina de dizer mesóclises rimando com bem menas propriedade do que faziam os que rogavam pela proteção de suas longas propriedades?

quando eu notei meus deslizes ainda com a carne fresca, agradeci a deus pela benção e passei a falar todas minhas abobrinhas vestida com calcinha e soutiens

eles que lutem

bom, se eu fosse contar aos senhores como seria se, donas do mundo, nós três passassemos a ter culhões, entregaria à minha nada prestigiosa orientadora vocacional algum ensaio entitulado "a obsessão pelas compras no século da revisão da impossibilidade da metalinguagem" ou "tanto fez como tanto faz: uma reflexao acerca da despersonalização da classe" ou "metonimia e contradição no relato popular da vida no brasil: meu pai era presente"

no primeiro caso, eu aventaria as seguintes hipóteses: 1) o individualismo e o consumismo em ascensão vertiginosa formam subjetividades obcecadas pela aquisição; a mercadoria tornou-se tudo e todas as coisas, apropriando-se de palavras para formar jargões como economia dos afetos, só vou amar quem me ama, e velha do caralho sai da minha frente nessa fila 2) houve consenso no fim do ultimo seculo sobre os limites da interpretação dos discursos no ambito publico; 3) sendo a metalinguagem uma impossibilidade logica, a necessidade de revê-la passa pelo recalcamento coletivo, pela necessidade inconsciente de nao lidar com as ambiguidades dos discursos, pela demanda por um pai salvador e ímpeto de inventar memórias sobre este pai 4) a metalinguagem passa a ser intuitivamente revisada no ambito publico da comunicação enquanto uma ferramenta, nao um meio, e portanto moldada para publicidade, o convencimento e a redenção. eu articularia essas hipoteses por pelo menos mil e quinhentos reais ao mes e passe livre no refeitorio. minha carne é barata, porém eu jamais dormiria na rua e se eu garantir isso até os 40 anos, desisto definitivamente da prostituição deste corpo branco alucinado e desejável.

no segundo caso, eu ensaiaria um trocadilho a partir de duas ideias. uma, o empatamento caracterizado pelo abandono da política, ou seja, deglutiria textos sobre pos politica, pensamento critico e dois, o principio neoliberal de contrariedade entre a ideia que somos diversos e muitos e a ideia que somos todes de uma classe. eu faria isso por um mês num spa longe da minha família drogada (em reabilitação, no shame), do meu marido homem heterocis, dos dois cachorros imundos que emporcalham o sofá que paguei com um mês inteiro de trabalho num escritório suburbano que fede a bafo de homem crente.

no terceiro caso, eu discorriria sobre como a detecção de privilégio a partir dos critérios puramente estéticos da presença da figura paterna na vida de uma pessoa é uma metonímia e não um fator sociológico qualitativo, necessariamente. a metonímia é relacionada ao deslocamento do singular e do plural: eu, que tive pai em casa, pai trabalhador, pai casado com a mãe, pai com nome no meu registro, seria um plural relacionado ao "pai presente"; no entanto, em países de capitalismo periférico, isso é um problema pra lógica, já que o regime capitalista patriarcal em países dilacerados pela colonização e imperialismo produz homens afastados de qualquer valor comum relacionado ao cuidado e ao asseamento. esse texto eu faria por dois anos grátis de análise com alguma gata fenomenal que me ajudasse a romper o meu afeto feroz pela minha mãe e essa obsessão atual por regimes redentores de enquadramento

mas como a gente nao é donas do mundo e, mesmo que o mundo seja redondo de fato, mas como mesmo o mundo sendo redondo, a gente não é dona dele, e o que dá é pra eu murmurar uma ave cansaço agradecendo porque meu pai disse chega e revolucionou o seu corpo, reabilitando-se aos 54 anos e nos ajudando a recuperar nossa seiva. fazer o que, precisamos uns dos outros como nunca antes na história desse país

em nenhum caso eu disse de fato o que eu queria dizer, posto ainda estou lalalanguidamente acordando de tantos anos etílicos e cheios de poemas sórdidos

vou amansando minha cavalaria

lembrando que nem tudo está perdido

yes i had horses too

acordei de um porre balbuciando os sonhos que acabaram agora mesmo

ano que vem faço trinta anos e de mim nao sei nada a que recorrer

sou livre, estou lúcida

sujeita indeterminada mas com esse humor macabro 

e vívidos lances, fenomenais jogadas


meu país é meu lugar de falha

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