nelson rodrigues que goze, entusiastas que gritem, o femen que mostre as tetas: eu teimo que existe limite. acordei hoje tão cedo e tava um sol tão lindo, uma riqueza enorme me tomou os olhos a ponto de ser necessário ouvir joão gilberto. e sem firulas, acontece que joão gilberto é uma grande frescura. e que fresquinho ficou o verão nessa manhã de dezembro!, é quase natal, é quase tudo tão doce...e na primeira bomba soltada, à vida força, me obrigaram a lembrar que hoje o corinthians estréia no mundial de clubes lá no japão. e numa puta que pariu dessas eu esperava que a tensão do momento fosse menos barulhenta. diz minha mãe a esse e outros respeitos: "você é uma ingênua". ela diz assim porque o sabe, porque nasci de sua barriga, mas os outros já podem dizer porque fiz questão de frizar a idiotice nas crenças tatuadas nos braços e coxas.
ingenuidade ultrapassada, cansada e finalmente renovada: valha-me deus, não posso ter sossego nem quando vocês vão pro japão? pra que estourar tanta bomba? minha cachorra já é velha e late feito um joão bobo, coitada. queria eu, no clímax do incômodo, poder gritar de volta, no mesmo volume, o tormento que o corinthians me causa. com isso dito, agora seria manchete do programa do ratinho que uma brasileira atípica não gosta de festas futebolísticas e até, não duvido da maldade do povo, que sou mal comida. não estou inventando nada. enquanto digito aqui - estranhando o mundo que acordado me parecia nobre, sonolento me parece efusivo e torpe - percebo que soltam as bombas, uma seguida da outra, sem descanso, porque são todos uns fanáticos. oh, que novidade! não são eles um bando de loucos insones? e que beleza tem nisto, por cristo? alguém com propriedade venha a mim e a nosso reino sonoro explicar porque é impossível ter mais de trinta minutos virgens nas manhãs universais. diriam, sobre isso, talvez, que é porque esse pouco tempo deve ser divino pra nos provocar tamanha elevação. então Deus é breve?
ele próprio, altíssimo, enorme, sem ouvidos, deve ter feito o sacrifício de ficar sem joão gilberto só pra ficar também sem fogos de artifício. afinal, uma coisa pela outra, a equação não bate...
se esse barulho todo for a exaltação do que não nos cabe, como o chapéu do capítulo dos chapéus que ironicamente é a extensão da cabeça do homem, ou como o sexo é a proximidade da morte em vias de uma continuação vigorosa da espécie, ou como o mate que habita a cuia de horácio é toda a e inteira a chave da existência de quem vaga pelas vias; bem, não me cabe dizer se de pronto teimei em odiar o barulho de bombas. assumo isso. assumo que não sou à favor da volta do manifesto futurista travestido de transgressão. num mundo desse, transgressão última seria o povo exatamente mudo e sem mãos a soltar bombas. não que eu, pessoalmente, valorize a idéia do "pão e circo" que professores marxistas ensinam nas histórias das escolas...isso é um saco. e a pessoa dentro de si mesma tem sensibilidades que leva ou não adiante. a educação importa, o acesso importa, a propagação de novos e inumeráveis caminhos importa. quero saber de fato de onde importamos esse mal hábito de tremer incalsavelmente o silêncio.
fazer força para declamar discuros progressistas, no caso das bombas de jogos de futebol, é uma contradição na medida em que, nesses mesmos discursos, se promove (vulgarmente falando) a evolução do homem. o homem que se enxerga minimamente vê a bobagem sem fim que é atormentar todo o seu envolto social com o barulho do seu descontrole.
cortinthianos, descontrolem-se como seus colegas de classe que apareceram na última promoção do CQC: comendo cocô familiar, cavando buracos, pulando de pontes. eu respeito sua escolha, profundamente respeito, mas exijo que vocês respeitem a minha de ignorar o acontecimento do dia tomando mate e fumando trevo. posso?
nesta colocação, aparece um paradoxo; estaria eu sendo ignorante? como esses falsos moralistas que dizem "respeito a sua escolha se respeitarem a minha", e justamente por não ser assim tão simples, eis o mundo? não. e o primeiro ponto é o fato nítido de a questão dos fogos barulhentos serem somente barulho sem grande potencial filosófico, logo, porque isso se trata de uma questão simples, contrária a questão maior do mundo (era simples os meus vizinhos respeitarem a minha escolha de não ouvir bombas e eu respeitar a deles de berrar loucamente quando houver gol). segundo ponto é o fato de a questão dos fogos barulhentos não ser uma questão política (reservo a mim esse direito estando ciente de esse debate ter potencial para desenrolar-se numa aula de sociologia. não aqui porque aqui é lugar nenhum), mas sim uma questão de comadres.
me admiro, ao contrário de baderneiros, por ser uma pessoa inteira que preza a manutenção de certas regras de convívio; ainda, me respeito por prezá-las em função da existência da arte, que pode suprir todas as transgressões e badernas necessárias sem atentar forçosamente à vida do "outro", forçando-nos, assim, a compreender o que se chama "outro" de maneira inteligente.
aqui não trato de uma utopia, dessas espirituais universalitas, mas sim do fato de eu ser muito bem comida!
Eu berrei na janela de tanto ódio.
ResponderExcluirSou mal comida?
Vou aparecer no Ratinho?
Sempre a mesma, linda.
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