"Mas durmo o sono dos justos por saber que minha vida fútil não atrapalha
a marcha do grande tempo. Pelo contrário: parece que é exigido de mim
que eu seja extremamente fútil, é exigido de mim inclusive que eu durma
como justo. Eles me querem preocupada e distraída, e não lhes importa
como. Pois, com minha atenção errada e minha tolice grave, eu poderia
atrapalhar o que se está fazendo através de mim. É que eu própria, eu
propriamente dita, só tenho mesmo servido para atrapalhar. O que me
revela que talvez eu seja um agente é a idéia de que meu destino me
ultrapassa: pelo menos isso eles tiveram mesmo que me deixar adivinhar,
eu era daqueles que fariam mal o trabalho se ao menos não adivinhassem
um pouco; fizeram-me esquecer o que me deixaram adivinhar, mas vagamente
ficou-me a noção de que meu destino me ultrapassa, e de que sou
instrumento do trabalho deles. Mas de qualquer modo era só instrumento
que eu poderia ser, pois o trabalho não poderia ser mesmo meu. Já
experimentei me estabelecer por conta própria e não deu certo; ficou-me
até hoje essa mão trêmula. Tivesse eu insistido um pouco mais e teria
perdido para sempre a saúde. Desde então, desde essa malograda
experiência, procuro raciocinar desse modo: que já me foi dado muito,
que eles já me concederam tudo o que pode ser concedido; e que os outros
agentes, muito superiores a mim, também trabalharam apenas para o que
não sabiam. E com as mesmas pouquíssimas instruções. Já me foi dado
muito; isto, por exemplo: uma vez ou outra, com o coração batendo pelo
privilégio, eu pelo menos sei que não estou reconhecendo! Com o coração
batendo de emoção, eu pelo menos não compreendo! Com o coração batendo
de confiança, eu pelo menos não sei."
-clarice lispector, trecho de "o ovo e a galinha"
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