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| Josef Koudelka |
perde-se tudo na vida moderna.
perde-se a autoria, a valia,
e a vida gotejando.
de ávidas somente as feridas.
há quem faça bolhas de sabão enormes nos parques de domingo
mas uma bolha é sempre uma bolha:
em volta do parque amontoam-se mendigos
e a vida gotejando
a economia aprumando
os velhos reclamando
o mundo sofre de transtorno bipolar quando nos meus olhos
tem dia que é cinza chumbo e tem dia que eu nem olho
tem dia que o sol nasce vistoso e tem dias que parecem enormes corpos
o mundo, o mundo
a roda-mundo...
se eu ficar muito tempo nessa vem um gritar:
"vai trabalhar, vagabundo!"
perdem-se as chaves numa clara analogia à falta de saída
e perde-se a vida
numa claríssima clarividência minha
a vida goteja nas vias
perde-se a fala:
redundância,
hipérbole exagerada,
eufemismo político,
"boa vida é a do rico!",
convivas da ignorância,
e pobres crianças:
gotejam na sala
perde-se o prumo
tamanha é a quantidade de coisas
sem coisidade: em gotas
pra tudo acalmar os nervos
cozinha-se bolos
frita-se em fervos
a humanidade aprendeu a gritar em silêncio
vem a solitude:
pronto!, perdeu-se o rumo
acabou-se tudo
a vida gotejando
os bancos calculando
os peões trabalhando
existem as críticas intencionais
mas nada passa de exploraçao política
são todos os que lêem uns bossais...
"a vida noutro pano é mais bonita!",
cocoricam sempre as vadias!
tudo do nada tem valia.
preocupados quase todos,
aparecem de sopetão com aqueles bolos
(quantos incômodos!)
fazem visitas, compartilham canções
regam coisinhas, não dividem o pão
são bem centrados, calculam prazos
independentes retardados
dizem pra mim agoniados:
"mas ah, você sumiu,
foi daqui ou foi de mim?"
e depois do oi já vem apurrinhar:
"vivo engaiolado..."
há quem viva num mundo sem tempo, querida:
a poesia é a minha vida

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